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Após a análise de diversos textos antigos, pode-se chegar à conclusão de que a interpretação de que, em Rm 7:24, o apóstolo Paulo estivesse se referindo a um antigo costume de atar cadáveres a pessoas vivas como forma de suplício deveria vir de três possíveis fontes.

Em primeiro lugar, essa explicação poderia ter por base a aplicação ao texto de Romanos de um notório episódio da história grega em que supostamente os piratas etruscos teriam imposto a seus prisioneiros gregos essa forma de tortura.

Em segundo lugar, essa explicação poderia encontrar algum tipo de sustentação no emprego da palavra grega nekrophoria que, embora seja usada corriqueiramente para se referir ao transporte de cadáveres para o sepultamento, também poderia metaforicamente aplicar-se à cruel forma de castigo que contemplava uma íntima ligação entre o corpo vivo e o corpo morto.

Finalmente, apoio para essa interpretação poderia vir do modo como os primeiros cristãos entenderam a passagem paulina.

Depois de investigados exaustivamente os três tipos de textos antigos mencionados anteriormente, pode-se chegar a algumas conclusões que, se não desabonam, pelo menos desaconselham a aplicação do contexto da necroforia a Rm 7:24. Em primeiro lugar, deve-se reconhecer que a necroforia, no sentido de atar um cadáver a uma pessoa viva, não era uma prática romana como é advogado por alguns, mas um episódio atribuído por gregos e romanos à história etrusca.

Em segundo lugar, não há nenhuma evidência histórica de que a prática tenha sido, de fato, desenvolvida pelos etruscos.

As fontes antigas, principalmente a passagem aristotélica que primeiramente narrou o suposto episódio, consideram-no geralmente de uma perspectiva essencialmente metafórica e aplicam-no à noção do dualismo entre corpo e alma, em que a vida é vista como uma tortura à alma, mediante a qual esta se vê acorrentada a um corpo pecaminoso e em putrefação.

Em terceiro lugar, mesmo quando nenhuma referência é feita ao episódio etrusco, a palavra grega nekrophoria, se usada em um sentido que ultrapasse a ideia do mero sepultamento de um cadáver, também se refere ao dualismo entre corpo e alma.

Finalmente, o modo como os cristãos se referiram ao texto de Rm 7:24, nos primeiros três séculos da era cristã, não nos permite concluir que o primeiro auditório de Paulo tivesse conseguido estabelecer uma relação mais do que fortuita entre a expressão “corpo da morte” e a suposta prática etrusca da necroforia.

Os primeiros cristãos entendiam a passagem em dois contextos principais: como uma referência ao dualismo entre alma e espírito, e como uma referência ao contraste entre a vida santificada (espírito) e a vida sujeita às propensões carnais (carne).

Contudo, embora alguns dentre os primeiros cristãos acreditassem que Paulo estivesse mesmo expressando seu desejo de que sua alma fosse libertada de sua prisão corporal, o contexto da tensão entre vício e virtude ou pecado e obediência, que permeia os capítulos 7 e 8 de Romanos, parece sufi cientemente forte para que esta segunda interpretação seja preferível.

Sendo este o caso, Paulo pode simplesmente estar afirmando que, diante do combate que travava com suas propensões carnais, ele desejava ser liberto de seu caráter humano e mortal, isto é, do “corpo desta morte”.

Os argumentos em favor dessa interpretação são persuasivos: em primeiro lugar, não há qualquer evidência de que o dualismo da narrativa aristotélica jamais tenha sido explicitamente associado a Rm 7:24; em segundo lugar, o próprio conceito de necroforia nunca aparece no contexto da passagem paulina; em terceiro lugar, o Protréptico de Clemente de Alexandre apresenta uma aplicação da necroforia que é inteiramente compatível com um contexto de dualismo entre carne e espírito para Rm 7-8 (muito mais, de fato, do que o de um dualismo entre corpo e alma); em quarto lugar, o mais antigo comentário sobre o livro de Romanos, escrito por Orígenes no século II, definitivamente favorece esta última interpretação; e, finalmente, o topos da oposição entre a virtude (espírito) e o vício (carne) pertence a uma tradição filosófica tão rica e longa quanto aquele do contraste dualístico entre corpo e alma.

Embora se reconheça que os dois primeiros argumentos sofram das deficiências comuns ao assim-chamado “argumento do silêncio”, como um todo, a evidência aqui apresentada deve ter, pelo menos, dois corolários: primeiramente, descartar uma relação explícita entre o episódio aristotélico dos piratas etruscos e Rm 7:24; e, em segundo lugar, advogar a plausibilidade do dualismo entre carne e espírito (em vez do dualismo entre corpo e alma) para a interpretação da passagem em questão.

 

Fonte: https://www.andrews.edu/library/car/cardigital/Periodicals/Hermeneutica/2010/2010_01.pdf

 

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