Em Comemoração Ao Centenário de William Marrion Branham

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O Senhor a dirigiu em seu caminho, e a levou através do território inimigo numa ocasião em que ela já estava à beira da morte. Então ela esperou, e se tornou numa vencedora da qual você jamais será capaz de esquecer.

Por Rebekah Smith

Eu não sei quem a viu primeiro. Havia cinco adultos no jardim naquela ocasião, e poderia ter sido qualquer um deles. Ou poderia ter sido minha mãe ou vovó, as quais estavam ambas na cozinha, aonde uma janela aberta acima da pia provia a elas uma clara visão da entrada. Elas teriam estado atentas, uma vez que eu estava brincando do lado de fora.

Eu me lembro de alguém gritando: “Olhe para isto!”. Um pequeno animal havia se virado no cascalho de nossa garagem, e estava fazendo seu caminho ao passar entre as pedras do portão que separa nossa casa das outras ao longo da rua. Seu progresso parecia estranhamente lento. Então percebemos que ele estava arrastando uma perna machucada, e o pelo alisado do seu lado esquerdo estava coberto de sangue.

“Bem, que coisa, que coisa”, disse papai, “é um gambá”.

Ele e os homens com quem ele estava conversando rapidamente levantaram-se de onde eles estavam sentados, em cadeiras de jardim debaixo de uma árvore, e ficaram observando isto. Eles estavam a poucos pés da entrada, mas o gambá parecia indiferente à minha presença e a deles. Eu estava parada na escada que conduzia a entrada para o lado do alpendre. Mais perto e mais perto ele chegava, e ele não parecia ter a intenção de parar antes que alcançasse a casa.

Aos nove anos de idade, eu não sabia muito acerca dos gambás, além do fato de que as florestas que se estendem entre a nossa casa e o rio eram cheios deles. Às vezes à noite nós os víamos no Utica Pike, uma bem movimentada rodovia que entrecortava nossa rua no final da quadra e que nos separava das matas. Vários deles eram mortos pelos carros. Porém eu nunca tinha visto um durante a minha vida deixado sozinho em nosso jardim.

Para alcançar a nossa casa, o gambá teve que cruzar a movimentada Pike, e avançar 300 pés ou algo assim abaixo na Ewing Lane. A nossa casa era a quinta da esquina, e a única que estava cercada. Não somente isso, mas de qualquer forma ele havia conseguido deslizar despercebido por Tippy, o atento spaniel preto do vizinho. Normalmente ele protestava por cada intrusão de homem, animal, ou máquina em seu domínio, que incluía 50 pés que se estendiam da rodovia em frente da casa de May, um espaço que o gambá havia simplesmente atravessado.

Eu jamais pude suportar ver um animal sofrer, ou ser maltratado. Embora mamãe tivesse normas estritas que proibiam animais em casa, eu podia frequentemente conversar com ela até permitir aqueles feridos passar alguns dias em meu “hospital” – uma caixa no porão. Eu havia “medicado” cães e patos, pássaros e coelhos. Depois houve uma ocasião em que eu trouxe para casa um gato… mas essa é uma outra história. Essa parte de minha natureza deve ter vindo de papai, que também trazia para casa sua parte de sofridas e indesejáveis criaturas, muitos para o vexame de mamãe! Uma vez seu “paciente” era um crocodilo ferido que estava acerca de dois pés distante, e ele até mesmo tentou trazer para casa dois filhotes de leões órfãos da África do Sul.

Eu podia ver que em cada passo que o gambá dava ele estava agonizando, e eu devo ter começado a ir em direção a ele porque a voz de papai me alertou para ficar onde eu estava. Este não era um cachorrinho ou um pássaro desamparado que eu pudesse “medicar”, mas um animal selvagem, com dentes bem afiados e poderosas mandíbulas. Papai alcançou um largo rastelo que estava inclinado contra a árvore e começou a ir em direção à pobre criatura.

ImageA maioria das pessoas considera o sariguéia (ou, gambá como é mais comumente chamado) ser feio sombrio e um animal semelhante a um rato. E levando em consideração o seu focinho significativo e liso e o seu rabo que se parece com um fio, dá a impressão de que ele nada mais é do que um enorme rato. Porém ele não está relacionado a ratos, ou qualquer outro animal da América do Norte. Os gambás pertencem a uma única classe de mamíferos que são conhecidos como marsupiais, o que significa que o seu filhote se desenvolve numa bolsa na barriga de sua mãe. Os cangurus da Austrália são os mais conhecidos de todos os marsupiais, porém o gambá é o único marsupial que vive na América do Norte.

Outro traço distinto do gambá é a sua habilidade para representar a morte quando confrontado pelo perigo, que é onde recebemos o termo “representando um gambá”. Ele diminui sua respiração e fica imóvel por horas se necessário. Eles são capazes de criar tal representação convincente de morte – incluindo um odor pútrido – que os agressores comumente os abandonam por desejarem presas mais frescas.

Quando papai estava perto o suficiente para alcançar o gambá com o rastelo, ele imediatamente parou e rolou para o seu lado, como se ele estivesse morto. Ele gentilmente segurou o rastelo sobre ele enquanto ele se inclinava para um exame mais de perto. “É uma mãe, com uma bolsa cheia de bebês”, ele declarou.

Bebês! Eu não podia esperar para vê-los, e uma vez mais eu comecei a ir em direção ao gambá. E mais uma vez foi-me dito para ficar onde eu estava. Papai ergueu o rastelo, e deu um passo para trás após um minuto ou dois, a mãe conseguiu ficar de pé e novamente começou a ir em direção à casa. Ela se virou quando ela se aproximou dos degraus do alpendre e seguiu ao longo da parede de fundação da casa por alguns pés, até que ela chegou a certo ponto em que se abrigou por detrás de um pequeno arbusto de cedro. Numa depressão pouco funda no cascalho, ela finalmente se deitou. Poucos minutos depois, sua bolsa se abriu e os seus bebês começaram a emergir.

Quando um filhote de gambá nasce, ele é do tamanho de um feijão comum – pequenino cego e sem pelo. Porém eles crescem bem rapidamente, e em dois meses e meio eles são grandes o suficiente para montar nas costas de sua mãe. Estes pequenos bebês não poderiam ter mais do que algumas semanas de vida. Eles eram um pouco mais de uma polegada de comprimento, ainda sem pelo, mas seus olhos já estavam abertos. Eles estavam serpenteando, e era difícil contá-los e conservar a nossa distância, mas papai finalmente calculou que houvesse nove deles.

A mãe nunca se movia, porém nós podíamos ouvi-la fazer pequenos ruídos que soavam como gemidos para mim. “Água”, eu pensei, “ela precisa de água”.

Eu corri para dentro de casa e abaixo na escada do porão. Mamãe mantinha um acúmulo de jarras e de pequenos recipientes numa prateleira na área de lavanderia. Eu desenrosquei a tampa de um pote vazio de maionese e corri de volta para fora. Cada um estava parado junto falando sobre o gambá e sem dar nenhuma atenção para mim, ou assim pensava eu. Eu enchi a tampa de água e engatinhando eu alcancei em volta do arbusto e comecei a empurrá-lo em direção ao gambá. “Rebekah Ann, fique longe desse animal neste exato momento! Ele provavelmente tem raiva”. Mamãe tinha ido até o alpendre e estava observando a cada movimento meu. Eu voltei para trás vagarosamente, desejando que a raposa soubesse que eu não estava lhe abandonando por escolha. Ficando longe a uma distância aceitável, eu usei uma vara para empurrar a tampa mais perto para a ponta do seu nariz, mas ela não conseguia levantar sua cabeça para beber. Eu não sabia o que fazer, então papai viu o meu dilema e teve uma grande idéia: ele dirigiu uma leve chuva de água sobre ela com a mangueira do jardim.

Ninguém daquele pequeno grupo que havia testemunhado estes estranhos procedimentos parecia saber o que fazer a seguir. O irmão Banks Wood, nosso vizinho e amigo próximo, estava lá. Ele havia estado ajudando papai com algum trabalho de jardim naquela manhã, mas quando Leo Mercier e Gene Goad, os administradores do escritório chegaram, os quatro se sentaram para conversar um pouco. O leiteiro, que há pouco havia feito nossa entrega bi-semanal, uniu-se a eles exatamente momentos antes do gambá aparecer, e depois ele decidiu ficar por perto, tão fascinado quanto o restante de nós.

Alguns minutos mais tarde, a irmã Wood, esposa do irmão Banks, veio da casa ao lado para ver a toda aquela comoção que estava ocorrendo. Ela era uma autoridade na vizinhança em matéria de cuidado com animais. Ela tinha tanques cheios de guppies e vários periquitos que ela havia ensinado a dizer: “É melhor você ser bom, Jesus está chegando!”. E uma vez ela teve um esquilo voador que ela permitia deslizar de uma cortina para outra em volta de sua casa.

“O que você acha, irmã Wood?”, papai agora perguntou.

Ela se inclinou para olhar mais de perto. “Aquela perna está em grande parte perdida, irmão Bill. As larvas e moscas tomaram conta. Eu não acho que um veterinário seria capaz de ajudar, mesmo se você conseguisse colocá-la dentro de um saco e levá-la ao seu escritório”. Ela balançou sua cabeça, e então eu ouvi as palavras que eu estava com receio de ouvir: “Matando ela e aqueles filhotes seria a coisa mais misericordiosa a fazer”.

Eu segurei minha respiração, e então eu vi papai levemente balançar a sua cabeça. Sua sugestão não se ajustava bem com ele. Ele lhe disse: “Irmã Wood, eu há pouco estava contando para os irmãos aqui sobre o brilhante exemplo de uma verdadeira maternidade que esta gambá tem nos mostrado. Apesar do fato dela estar morrendo, ela lutará para proteger suas jovens crianças com o seu último sopro. Nós honraremos a Srª. gambá ao tentar torná-la tão confortável quanto podemos, e simplesmente deixaremos isto assim por enquanto”.

Depois disso, tudo havia voltado ao normal bem rapidamente. Nossos visitantes foram para casa e papai tinha vários apontamentos que o mantiveram ocupado até a hora do jantar. Eu fiquei no alpendre lendo um livro, de modo que eu pudesse ficar de olho na família gambá, porém nada mais aconteceu. Ocasionalmente ela fazia um movimento fraco, como que para conferir os filhotes, mas na maior parte do dia eles ficaram em sua bolsa e fora de vista. A confortável manhã de julho converteu-se numa tarde de calor abafado, e o espaço junto ao pequeno cedro estava completamente exposto ao sol. A única coisa que eu sabia fazer era borrifá-la ocasionalmente com a água da mangueira, como papai havia feito. Meu maior temor era que a irmã Wood chegasse próximo quando eu não estivesse ali. Sem alguém para pará-la, eu estava com medo de que ela pudesse decidir por si mesma a ajudar os gambás a “por um fim ao seu sofrimento”. Então, eu fiquei de guarda.

Minha avó Broy ainda estava em casa naquela noite, e ela ficou com nós as crianças enquanto mamãe e papai foram dar um passeio de carro após o jantar, para relaxar. Ela estava ficando conosco por algum tempo, ajudando mamãe a tomar conta do meu irmão bebê recém-nascido e de minha irmã de quatro anos. Ela também ficava conosco em algumas ocasiões quando mamãe viajava com papai para uma reunião. Todo mundo que a conhecia chamavam-na de mama, e eu a amava carinhosamente. À noite, após ela colocar Sarah na cama, ela e eu sentávamos no alpendre e eu penteava o seu cabelo. Isso havia se tornado um ritual na estação do verão que eu parecia passar adiante.

Naquela noite, enquanto eu penteava e trançava suas longas tiras de cabelo grisalho, a Srª. Gambá e seu bebês deitavam distante apenas poucos pés. Isso me fez pensar de algo que havia acontecido no verão anterior, quando mama estava ficando conosco e mamãe e papai estavam fora: nós havíamos há pouco terminado o nosso ritual de cabelo numa noite quando um táxi estacionou na entrada e parou próximo ao alpendre. O motorista saiu e chamou: “Mama, estou com Fletcher atrás do carro. Eu o encontrei inconsciente na rua e não sabia o que fazer com ele”.

Fletcher era o meu tio, o irmão mais velho de mamãe. Ele era uma pessoa bondosa e amável, porém ele era também um alcoólico. Às vezes havia dias, ou até mesmo semanas, quando ele desaparecia numa farra de bebedeira, e sua família nem mesmo sabia se ele estava vivo ou morto. Eu nunca tinha visto ele (ou ninguém mais, por este motivo) bêbado, e me senti assuntada enquanto o motorista ajudava mama a tirá-lo do táxi e erguê-lo até aos degraus.  Eles o puseram no chão, em frente do escorregador. “Vá para a cama agora, querida”, ela me disse. “Tudo ficará bem, mas você não precisa estar aqui fora”.

Eu fui até o outro lado da porta de proteção que levava para a cozinha, e dali eu cuidei para ver o que ela faria.

Mama agradeceu o motorista, e ele partiu então ela balançou o tio Fletcher para tentar levantá-lo. Ele resmungou algo que soava como “sinto muito, mama”.

“Fletcher”, ela lhe disse, “tenho muito respeito pelo irmão Bill para permitir você de entrar em sua casa. Mas você é meu, e eu não desprezarei você. Você pode dormir no alpendre até de manhã”.

Ela tirou fora o seu avental, o dobrou e o pôs debaixo de sua cabeça. Então ela se assentou no escorregador. O tio Fletcher estava aos seus pés, deitado atrás dela. Ele começou a roncar fortemente, e eu podia contar 10 pés distante que ele inda estava cheirando. Eu estava pensando que isso foi uma das coisas mais desagradáveis que eu já tinha visto em minha vida.

Depois mama se inclinou em direção a ele, sua longa trança grisalha caindo à frente para tocar seu ombro. Com sua mão, ela agarrou e ternamente tirou sua própria sujeira e afastou o seu o cabelo emaranhado de sua testa. “Mama ama você querido” ela murmurou, enquanto ela batia de leve em sua face, e ela começou a sussurrar suavemente. Isso soava como uma canção de ninar.

Senti-me como se algo tivesse atingido dentro de meu peito e pressionado o meu coração. Eu sabia que eu estava testemunhando algo poderoso. Isso foi uma lição de maternidade, e eu sabia que eu jamais esqueceria aquela imagem enquanto eu vivesse.

Agora me perguntava. É isso que aquela Srª. Gambá está sentindo por seus bebês, enquanto ela luta pela sua vida e a deles? Ela também era uma boa mãe; papai havia dito assim. Honraria o Senhor a isto, e a pouparia por causa dos seus bebês?

Eu dificilmente conseguia dormir naquela noite, perguntando qual seria a situação de manhã. A porta da cozinha já estava aberta quando eu saí para examiná-la em algum momento, logo após o amanhecer. Papai estava no alpendre, olhando para baixo para a pequena família sofredora. “Ela está viva?” eu perguntei.

“Sim, ela está”, ele me disse, “mas ela está pior do que ela estava ontem. Eu toquei levemente nela com meu pé não faz muito e não houve resposta. Porém ela ainda está respirando”.

Juntos, olhamos para os gambás por um minuto ou algo assim. Podíamos ver alguns movimentos enquanto os bebês agitavam dentro de sua bolsa mais ou menos aberta. “Suba na cama com mamãe e vá dormir mais um pouquinho”, disse papai, então ele voltou e foi para a sua sala do recanto, pela entrada do alpendre.

Porém eu não conseguia mais dormir. Eu sabia que alguma coisa teria que ser feita logo, mas eu não podia sustentar o pensamento dos gambás serem mortos. Eu fugi contra a parede, próximo à porta da cozinha, e esperei.

Quando papai saiu de seu recanto em direção ao alpendre, ele não tinha me visto, e eu não tornei minha presença conhecida. Eu sabia de que alguma coisa estava prestes a acontecer, porque papai não era o mesmo quando ele saiu do recanto de onde ele havia estado quando ele havia saído antes por um curto tempo. De alguma forma você poderia apenas dizer. Era a maneira como ele sustentava os seus ombros, ou o inclinar de sua cabeça? Eu realmente não sei.

Ele desceu os degraus e foi parar diretamente na frente do local onde a Srª. Gambá e seus bebês estavam. Ele inclinou sua face em direção ao céu e ergueu suas mãos. Havia lágrimas em seu rosto.

Eu confesso que eu não ouvi exatamente tudo o que ele orou. O que eu ouvi foi: “Ela veio para receber oração, e como uma dama, ela tem estado aguardando pela sua chance…”. Era isso! Eu sabia que havia alguma coisa especial a respeito dela, exatamente como eu soube que naquele instante ela fora curada.

ImageQuando ele terminou a oração, eu fiquei de pé e caminhei para ver o que estava acontecendo aos seus pés. A Srª. Gambá estava de pé! Seus primeiros passos foram tentativas, mas então papai deu um passo de lado, e ela passou por ele sobre pernas firmes e fortes. Seu pelo ainda estava alisado e sujo, mas obviamente a carne e o osso debaixo haviam sido completamente restaurados. Quando ela chegou ao final da entrada, ela parou entre as duas pedras do portão e deu uma meia volta atrás para olhar para nós. Aquilo foi tão claramente um “Obrigado” que eu quase pude ouvir as palavras sendo ditas. Então ela girou para a esquerda e seguiu de volta para o seu lar nas matas. Nós nunca mais a vimos de novo.

Fonte: Believers News. Fevereiro de 2001.

Tradução: Diógenes Dornelles

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